Crônica - ORELHA DE PORCO COM RUM BACARDI




Em geral, temos uma justificada má vontade com essas pessoas que fazem da política partidária a sua profissão. Por que elas personificam a equivocada compreensão de que os cargos eletivos equivalem a um emprego. Quando deveriam entender que, na verdade, esses cargos representam um conjunto de obrigações e compromissos, do político para com quem o elegeu.
            Mas, olhando a situação pelo lado contrário, é necessário reconhecer que, para chegar-se a um cargo eletivo e usufruir das vantagens (que são muitas!) de ser eleito e empossado, o preço a pagar também não é muito barato. E aqui, não me refiro ao custo financeiro da campanha eleitoral, porque esta é bancada por esquemas — muitas vezes ilícitos — que, como temos visto, envolvem os partidos, candidatos e empresários, numa promiscuidade abominável.
            Refiro-me à verdadeira “maratona”, que os aspirantes a alcançarem tais cargos precisam enfrentar, no correr de uma campanha pela vitória nas urnas. De viagens, reuniões, comícios e discursos (às vezes, vários por dia), conversas e negociações com grupos de eleitores, além de almoços ou jantares oferecidos por chefes políticos ou cabos eleitorais das cidades e regiões que visitam. Alguns, muito simples e outros, verdadeiros banquetes, mas que não podem ser recusados, sob o risco de cometerem uma ofensa grave a quem lhes preparou a cortesia.
            É uma trajetória cansativa e, com bastante frequência, um bocado indigesta também! Porque, para se mostrarem simpáticos e populares, os candidatos se sujeitam a tudo! Comem pastel no mercado municipal, tomam caldo de cana na “Barraca do Tonho” — que é muito popular no lugarejo, mas não prima pela higiene — e outras coisas do gênero. Sem contar com as refeições que ainda virão depois.
            Tivemos um parente que se meteu em política, lá pelo Espírito Santo, sendo eleito deputado federal por várias legislaturas. E me lembro dele falando dessas coisas, quando passava pela cidade em que morávamos e aproveitava para nos visitar. A narrativa que ele fazia dos acontecimentos, nos períodos de campanha eleitoral pelo interior do Estado, tanto dava para rir, quanto para ter pena do desinfeliz...
            Muitas vezes, obrigava-se a acompanhar o anfitrião, pitando um cigarro de palha, preparado com aquele fumo de rolo bravo, capaz de rachar o peito de quem não fosse acostumado com essa ignorância. Ou a experimentar uma pinga, que lhe era ofertada, como prova de consideração, às oito e meia da manhã. Não há saúde que aguente! E logo a dele, que tinha um estômago sensível e padecia de uma gastrite crônica! Morreu de câncer no aparelho digestivo, coitado!
            Pior que tudo eram os almoços, lanches e jantares que encontrava à sua espera pelo meio do caminho! E que, para não desfeitear quem os mandara preparar em sua homenagem, precisava comer ou, pelo menos, fingir que comia, enquanto a mulher do anfitrião, orgulhosa de ter o deputado sentado à sua mesa, queria a todo custo servi-lo outra vez. Até que, certo dia, o desespero de tudo isso bateu mais forte do que a sua disposição para fazer esse “meio de campo” com a raia miúda. E ele perdeu as estribeiras.
            A jornada já durava há vários dias e o estômago vinha lhe cobrando o preço por essas aventuras gastronômicas. Foi quando, já tendo almoçado numa parada anterior, foi recepcionado, no lugarejo seguinte de seu roteiro, por um cabo eleitoral que mandara preparar uma leitoa, com os necessários acompanhamentos, para mimosear o candidato. Ele respirou fundo e preparou-se para, mais uma vez, apenas fingir que degustava o almoço, após recusar o aperitivo que lhe foi oferecido.
            Aí, o dono da casa, por certo entendendo aquilo como uma deferência, disse ao convidado:
            — Deputado... Eu mandei separar lá na cozinha as orelhas da leitoa e nelas ninguém toca, porque são para o senhor!
            O estômago do ilustre visitante deu duas voltas e o almoço, comido na recepção de antes, subiu-lhe até o gogó, de onde só retornou a muito custo, depois que ele conseguiu controlar uma náusea brutal que o acometeu. Olhou de lado e viu, sobre a bandeja, uma garrafa de rum Bacardi. Juntou a bebida pelo gargalo e respirando fundo, para conter a ânsia do vômito, ameaçou o anfitrião:
            — Eu tenho horror a orelha de porco! Se puserem isso no meu prato, eu quebro essa garrafa na sua cabeça!
            Realmente, se existe uma coisa que não combina, é orelha de porco com rum Bacardi! E a prova disso é que, quando abriram as urnas, ele não havia recebido um único voto naquele distrito.

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