Crônica da semana - ORA, NÃO ME ENCHA O SACO!


Morava numa cidadezinha do interior, aquele sujeito que se sentia o rei do pedaço. Não por ele mesmo, que era apenas um boçal sem qualquer importância pessoal ou profissional, mas pelo fato de ter sido aquinhoado pelo destino com uma irmã bonita e gostosa. Irmã, essa, que viera a transformar-se na quenga do capitão que comandava o destacamento de polícia, ao qual cabia manter a lei e a ordem na área.
            O militar, que possuía família na capital, fora transferido para aquele comando e depois de algum tempo distanciado da mulher e dos filhos, aos quais só visitava uma vez por mês ou menos que isso, ficou conhecendo dita moça, nativa do lugar, a propósito de uma ocorrência policial sem maior importância. Encantou-se por ela — uma morena bonita, de pernas torneadas, curvas proeminentes e jeito brejeiro — e, para impressioná-la, fez uma manifestação para evidenciar o seu poder:
            — De hoje em diante, você estará sob a minha proteção pessoal. Você e sua família! Se alguém incomodá-los, é só acionar a guarnição, a quem darei ordens expressas nesse sentido. Quem mexer com vocês, vai mexer comigo!
            Queria impressionar a moça e, de fato, impressionou! Tanto que ela, depois de um assédio ao qual não resistiu, foi acabar na cama do oficial. E o que era para ser recompensado em cota única, caiu no gosto de ambos e virou um hábito, terminando por transformar-se a protegida numa espécie de “teúda e manteúda” do protetor. E assim, logo o assunto caiu na língua do povinho fofoqueiro do lugarejo, sabendo todos que com ela e a respectiva família era vedado mexer. A não ser que alguém quisesse sentir o peso da autoridade e de seus comandados no lombo. O que, parece evidente, ninguém queria.
            Aliás, nem mesmo aos homens do destacamento era permitido incomodar aquela que fazia o comandante gemer sem sentir dor. E o mesmo se aplicava aos seus familiares, o que quase equivalia a um salvo conduto, do qual se aproveitava, sobretudo, o irmão da amásia do capitão. Mas essa parte da ordem, sim, era custosa de cumprir, porque o sujeito era do tipo folgado e exibicionista. E não perdia a oportunidade de demonstrar aos parceiros de gandaia que possuía essa espécie de imunidade.
            Se houvesse qualquer confusão, na qual algum de seus amigos estivesse metido, era só a polícia chegar, que ele se metia desautorizando a guarnição:
            — Êpa! Vamos parar por aí mesmo, que esses aqui estão comigo! Não toquem em ninguém, que eu mesmo cuido disso!
            A vontade de aplicar um corretivo geral era quase incontrolável, mas ordens são ordens e os meganhas se continham, para não afrontar o capitão. Mas, depois de algum tempo, foram pedir providências a ele, porque o desacato já passava dos limites. E a força pública já começava a virar motivo de chacota para a população, que percebia a sua impotência diante dos excessos do pilantra.
            O capitão disse que iria por um ponto final naquilo. Conversou com a irmã do moleque, reclamando pelos seus abusos e disse que iria acabar com aquelas liberalidades com “manu militari”. No entanto, ela lhe rogou por um pouco mais de paciência, dizendo que era jovem e imaturo, mas que aprenderia a conduzir-se com o passar do tempo. E, para melhor argumentar, aplicou uma chave de pernas no milico, que acabou sucumbindo no campo de batalha e perdendo o ímpeto da deliberação.
            No dia seguinte, no entanto, encontrou uma forma de aliviar as tensões dos seus comandados, por causa desse assunto: arranjou para o rapaz um cursinho de três meses numa cidade maior e algo distante dali, para o que contou com a ajuda inestimável de um major, que era seu camarada, e garantiu a hospedagem do seu “cunhado de bastidores”. Com as demais despesas, obviamente, arcadas pelo capitão.
            O tempo do curso decorreu e o rapaz voltou para casa. Chegou à noitinha, mal teve tempo de tomar um banho, jantar e, sem nem um dedo de prosa com a mãe ou o pai, já partiu para rever os amigos, ansioso para beber um bocado e contar-lhes sobre uma cidade grande e cheia de atrativos, que ninguém da turma conhecia.
            Encontrou-se com eles, contou vantagens e, no mais, foi o mesmo de sempre: bebida, muita bebida e confusão com o dono do bar, na hora de pagar a conta. Iniciaram uma briga, mas logo chegou a guarnição, que deu ordem de prisão para toda a molecada. Foi quando ele esboçou uma reação e um dos soldados lhe disse que ficasse quietinho ou que, além de preso, seria algemado. Ele mirou o policial com ar de menosprezo e exibiu a imunidade que lhe conferia a condição de irmão da quenga do comandante:
            — Ora, não me encha o saco!
            Aquela sensação de formigamento que sentiu na boca, logo a seguir, foi o resultado do tapa de mão aberta, que o milico lhe aplicou nos beiços. E o zunido que passou a ouvir — e ainda ouviu por uns dois dias seguidos — foi o efeito de um “telefone” que recebeu na sequência. Mas, antes que pudesse perguntar qualquer coisa, o autor da façanha já lhe foi esclarecendo:
            — Sabe aquele capitão que protegia você? Foi transferido daqui. O novo comandante é casado, trouxe a família e vai à missa todos os dias pela manhã. Acho que aquela sua irmãzinha não vai poder ajudar muito...
            Assim e finalmente, a respeitabilidade do destacamento fora restaurada!

           
           
           

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